segunda-feira, 20 de julho de 2009

UM DIA VOCÊ ACORDA

Um dia você acorda e sente que já não é mais o mesmo, que o cheiro da vida mudou, que as antigas motivações não lhe servem mais, como roupas antigas e apertadas, desbotadas pelo uso excessivo.
Um dia você acorda e percebe que a luz está diferente, que os sons da vizinhança não lhe dizem mais respeito, que o som do seu coração está cansado das mesmas batidas na terra, seu coração está pedindo é para voar .Percebe que antigos sonhos estão voltando, mas não têm lugar naquele pouco espaço que lhes foi destinado, como uma revoada de passarinhos a fazer um barulho incrível no seu peito, batendo asas e soltando penas.
Você acorda e se dá conta do que não fez, de onde não chegou, dos arranjos e das coisas e gentes que usou para seu gozo, e no entanto, não conseguiu ser íntegro consigo mesmo.
Um dia acorda e percebe: decepcionado, quis crer em tantas crenças e doutrinas, se esforçou para agradar a gregos e troianos, disse "sim" quando queria dizer "não", e deixou de falar "não" tantas vezes que já não sabia mais qual era o seu querer, quais eram os seus sabores preferidos e a direção que escolheu caminhar.
Da mesma forma, acorda e percebe que estava com saudade da sua música, seus livros, seus segredos e seu ócio. Acorda e olha para o teto, vê possibilidades acima do teto; sorri, simpatizando-se com a aranha tecendo teimosa a despeito das estocadas diárias da vassoura.Sem se render, ela recomeça toda noite, e agora você se dá conta que existe a coragem de recomeçar.
Um dia você acorda e lembra que riu, comeu e sentou a mesa com gente que de fato nunca se importou, e você oferecendo seu melhor sorriso em troca de aceitação. Que bobagem. Lembra que não protestou diante de absurdos, recolhendo-se à boa educação de sempre.Lembra que deu o relógio para a pessoa errada, e deixou de abraçar por puro preconceito, e que não tentou mais uma vez.
Um dia você acorda cansado de dizer que está cansado de viver, e decide que vai correr o risco de recapitular suas teologias e filosofias.
Um dia. Um dia você acorda.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

SOBRE O INIMIGO

Caramba, como se fala no diabo! Fico impressionado como ele se tornou necessário. O diabo suga a fé, derruba crente, se infiltra em poderosas redes de televisão, envia pragas, fura pneu de carro, provoca terremotos, conhece os limites dos municípios e domina territórios. Compete e ganha de Deus. É diabo para cá e para lá o tempo todo. Se alguém está triste, advinha quem mandou a tristeza. Se alguém duvida, advinha quem mandou a dúvida. Se alguém adoece, advinha quem mandou a enfermidade. Arre! Chega! Será que ninguém vai assumir o que faz? Fica fácil culpá-lo já que o mundo inteiro está controlado, guiado, dominado, manipulado e organizado por Satã. Mas o Bicho merece o estatus de espantalho, Judas, bode expiatório? Até quando os humanos vão projetar nele suas mazelas?Dá para compreender tanta importância. Como se levantaria dinheiro nas igrejas se o Capeta não fosse a estrela do show da fé? Como televangelistas inculcariam pavor nas pessoas se o Coisa-Ruim não fosse tão medonho? Como as poderosas multinacionais da fé subsidiariam seus projetos se o Demo não adquirisse tanta força? Confesso. Tenho medo de uma religião em que o mal se torna o pivô da espiritualidade. Fico apreensivo com uma fé que não pode prescindir de ameaças e arredio com uma ética constrangida pela possibilidade de Satanás ter direitos legais para arrasar as pessoas que erram.
Não discuto a sua existência. Fico apenas suspeitoso com tanta badalação. Eu já não gostava dele, agora não aguento mais ouvir falar na Peste. Por mim, Belzebu não receberia nenhum jabá. Eu não permito que ele dê o tom do meu culto a Deus; não aceito que seja a minha motivação para agir. Enfim, não deixo que ele tome o lugar de Jesus.
Soli Deo Gloria

(Ricardo Gondim)

sábado, 23 de maio de 2009

BUG (ALHOS)











Depois da Mulher Melancia, Mulher Moranguinho, Mulher Melão e tantas outras hortifrútis, é hora de conhecer a Mulher Alho.


fonte: Cerveja bem

sábado, 16 de maio de 2009

INVEJA

“Um ventrudo sapo grasnava em seu pântano quando viu resplandecer no mais alto de uma pedra um vaga-lume. Pensou que nenhum ser teria direito de luzir qualidades que ele mesmo não possuiria jamais. Mortificado pela sua própria impotência, saltou em direção a ele e o encobriu com seu ventre gelado. O inocente vaga-lume ousou perguntar ao seu algoz: Por que me tapas? E o sapo, congestionado pela inveja, apenas conseguiu interrogá-lo: Por que brilhas?”.

terça-feira, 12 de maio de 2009

EXCELÊNCIA E AMOR

Padre Antônio Vieira contou uma breve parábola sobre o amor.

Certo homem saiu para caçar. Tentou acertar vários animais, mas errou todos. Ruim de pontaria e mal sucedido em abater um bicho que alimentasse a família, voltava triste para o lar.
A poucos metros da porta de casa, viu uma cobra enrolada no pescoço do filho caçula. Sem hesitar retesou o arco e flechou a serpente. Acertou-lhe em cheio e salvou a vida do filho.

Vieira então pergunta: “O que fez o pai para acertar a cabeça da áspide, se era um péssimo caçador, ruim de pontaria?”. Por que, de repente, o homem fez-se exímio no arco e flecha?

Vieira responde: “O amor”. O amor sempre forja especialista, sempre cria excelência. As pessoas tornam-se criteriosas devido ao afeto.

Quem ama não aceita a lógica do “de qualquer jeito”; aliás, detesta “jeitinhos”. Extravagante nos gestos, refina atitudes. Os amantes caminham milhas extras sem perceber; transformam as decisões banais em mandamentos divinos. O esmero nasce do amor.

( Ricardo Gondim )

segunda-feira, 4 de maio de 2009

AFETOS

Não sei se vocês já perceberam que as pessoas acham muito mais fácil exprimir seus ódios e raivas que seus gostares e afetos.
Já me perguntei várias vezes sobre as razões deste aleijão absurdo, e a única explicação que me vem à cabeça é que, ao fazer explodir seus ódios e raivas, as pessoas se sentem como tigres, temíveis e fortes animais de caça. Enquanto que, ao mostrar o seu gostar, elas se sentem como aves indefesas, tolas e ridículas, prisioneiras na arapuca do outro.
E para não se sentirem presas, preferem deixar preso o gostar, no silêncio...

(Rubem Alves)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O PODER DAS PALAVRAS

Na vida agitada a que estamos mergulhados, com tantos compromissos e tempo escasso, não temos oportunidade de conscientizarmo-nos da importância das palavras. A palavra consola, ensina e aquece, mas também mata, humilha e destrói. Quando dita em tom ferino, machuca e dói. Atiça nação contra nação, família contra família, pai contra filho e filho contra pai. Instila ódios, esmaga sonhos e leva ao desespero. Seu poder é tamanho que pode destruir sem deixar pistas, através de injúrias, calúnias, humilhações e zombarias. Ditas no calor da ira, penetram feito dardo envenenado, abrindo feridas profundas, difíceis de se curar, reboando no íntimo de cada um por um tempo que parece interminável. Só o entendimento e compreensão de um coração compassivo é capaz de eliminar da mente os rancores, imunizando-nos contra a palavra maldita.

Como seres humanos, produzimos e captamos energias. Assim, quando falamos coisas boas, elas atingem o outro e voltam com mais força para nós. O mesmo poder tem as palavras destruidoras. Não foi à-toa que Jesus recomendou a seus discípulos que desejassem a paz a todos que encontrassem pelo caminho. Irradiando paz estaremos também conquistando-a em nosso interior. Uma palavra de carinho, de alegria, de esperança é como uma brisa suave a ativar nossas melhores energias. Distribuir conhecimentos, resgatando pessoas da ignorância, enchem nossos corações da mais plena satisfação. Dizer coisas boas não custa nada e fazem um grande bem.

Os grandes ídolos, que possuem seguidores em toda parte, não refletem sobre o exemplo que dão com suas palavras e comportamento. Portanto, é imprescindível analisar tudo que se diz, o seu alcance, assim como suas conseqüências. Aprendemos a semear apenas palavras boas e construtivas. E estejamos cientes da importância do silêncio, pois em muitos momentos ele é de grande necessidade. A tagarelice cansa os ouvidos com suas frases sem consistência. Dizer "bom dia", "obrigado", e "pôr favor" indica bons princípios e respeito pelos semelhantes. Usar as palavras para alegrar, incentivar e apoiar é dever de todos. Entretanto, existem pessoas que sentem prazer em deixar os outros no chão, não perdendo oportunidade para despejarem maledicências. Sejamos cuidadosos com nossas palavras. Elas são poderosas.

(Artigo de Lúcia Regina Mello, publicado no Jornal Boa Nova, Edição 14/1997)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

TESTE PSIQUIÁTRICO

Durante a visita a um hospital psiquiátrico, um dos visitantes perguntou ao diretor:- Qual é o critério pelo qual vocês decidem quem precisa ser hospitalizado aqui? Respondeu o diretor:- Nós enchemos uma banheira com água e oferecemos ao doente uma colher, um copo e um balde e pedimos que a esvazie. De acordo com a forma que ele decida realizar a missão, nós decidimos se o hospitalizamos ou não.





(Pense um pouco, e responda... )






- Entendi - disse o visitante - uma pessoa normal usaria o balde, que é maior que o copo e a colher.


- Não - respondeu o diretor - uma pessoa normal tiraria a tampa do ralo. O que o senhor prefere? Quarto particular ou enfermaria?

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O DEUS QUE ACREDITO.

"Eu acredito em Deus!!Mas não sei se o Deus em que eu acredito, é o mesmo Deus em que acredita o balconista, a professora, o porteiro, o bispo ou pastor….O Deus em que acredito não foi globalizado.O Deus com quem converso não é uma pessoa, não é pai de ninguém. É uma idéia, uma energia, uma eminência.Não tem rosto, portanto não tem barba.Não caminha, portanto não carrega um cajado.Não está cansado, portanto não tem trono.
O Deus que me acompanha não é bíblico.Jamais se deixaria resumir por dez mandamentos, algumas parábolas e um pensamento que não se renova.O meu Deus é tão superior quanto o Deus dos outros, mas sua superioridade está na compreensão das diferenças, na aceitação das fraquezas e no estímulo à felicidade.O Deus em que acredito me ensina a guerrear conforme as armas que tenho e detecta em mim a honestidade dos atos.Não distribui culpas a granel: as minhas são umas, as do vizinho são outras. Nossa penitência é a reflexão.Ave Maria, Pai Nosso: isso qualquer um decora sem saber o que está dizendo.Para o Deus em que acredito, só vale o que se está sentindo.O Deus em que acredito não condena o prazer.Se ele não tem controle sobre enchentes, guerrilhas e violência, se não tem controle sobre traficantes, corruptos e vigaristas, se não tem controle sobre a miséria, o câncer e as mágoas, então que Deus seria ele se ainda por cima condenasse o que nos resta: o lúdico, o sensorial, a libido que nasce com toda criança e se desenvolve livre, se assim o permitirem?O Deus em que acredito não me abandona, mas me exige mais do que uma flexão de joelhos e uma doação aos pobres: cobra caro pelos meus erros e não aceita promessas performáticas, como carregar uma cruz gigante nos ombros.A cruz pesa onde tem que pesar: dentro.É onde tudo acontece e Este é o Deus que me acompanha.Um Deus simples.Deus que é Deus não precisa ser difícil e distante, sabe tudo e vê tudo.Meu Deus é discreto e otimista.Não se esconde, ao contrário, aparece principalmente nas horas boas para incentivar, para me fazer sentir o quanto vale um pequeno momento grandioso: de um abraço numa amizade, uma música na hora certa, um silêncio.O Deus que eu acredito também não inventou o pecado, ou a segregação de credo.E como ele me deu o Livre-Arbítrio, sou eu apenas que respondo e responderei pelos meus atos."

(RUBEM ALVES)

sábado, 4 de abril de 2009

PONTO DE VISTA


"Os portugueses se horrorizavam ao saber que os índios matavam as pessoas e as comiam. Os índios se horrorizavam ao saber que os portugueses matavam as pessoas e não as comiam. Tudo depende do ponto de vista."

quinta-feira, 2 de abril de 2009

INVEJA


Ela estava muito feliz. A casa dos seus sonhos, que ela e seu marido estavam construindo, ficou pronta. Queriam, agora, compartilhar a sua alegria com os amigos. Decidiram, então, fazer um dia de "Open House", "Casa Aberta", para o qual todos os amigos seriam convidados. A alegria compartilhada fica maior. Foi o que ela me disse numa sessão de psicanálise. Eu me calei. Não tive coragem de falar. Na sessão seguinte ela estava mergulhada uma profunda tristeza. Nada acontecera como o esperado. Os amigos não ficaram felizes. Os visitantes trataram de estragar a sua alegria. "Mas você não acha que aquela parede amarela teria ficado melhor se tivesse sido pintada de verde?" "Esse forno de pizza: meu primo fez um; no início foi uma festa, depois foi o esquecimento. O forno está lá na casa dele, sem uso..." "Aquela escada de madeira teria dado mais classe à sua classe se fosse de granito..." Foi assim que ela aprendeu a dura lição da inveja. Não pense que seus ditos amigos ficarão felizes com a sua felicidade. Eles tratarão de destruí-la.


(Rubem Alves: Ostra feliz não faz pérola, Ed. Planeta)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

PATOS SELVAGENS

Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. Tudo tão bonito! Mas era uma beleza que doía. O cansaço do bater das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando e as espingardas dos caçadores... Foi então que um dos patos selvagens, olhando lá das alturas para a terra aquí em baixo viu um bando de patos domésticos. Eram muitos. Estavam tranquilamente deitados à sombra de uma árvore. Não precisavam voar. Não havia caçadores. Não precisavam buscar o que comer: o seu dono lhes dava milho diariamente. E o pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, baixou seu voo e passou a viver a vida mansa que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos. Até que... Até que, num ano como os outros chegou de novo o tempo da migração dos patos. Eles passavam nas alturas no fundo do azul do céu, grasnando, um grupo após o outro. Aquelas visões dos patos em voo, as memórias das alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com alguma lugar esquecido dentro do pato domesticado, o lugar chamado saudade. Uma nostalgia pela vida selvagem, pelas belezas que se vêem nas alturas, pelo fascínio do perigo... Até que não foi possível aguentar a saudade. Resolveu voltar a ser pato selvagem que fora. Abriu suas asas, bateu-as para voar, como outrora... mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gordo demais. E assim passou o resto da sua vida: em segurança. gordo de barriga cheia, protegido pelas cercas e triste por não poder voar.

(Rubem Alves: Ostra feliz não faz pérola. Ed. Planeta.)

terça-feira, 31 de março de 2009

HÁBITOS

Eu não tenho o hábito de beijar minha amada ao sair de casa de manhã cedo. Hábito é uma ação automática, como lavar as mãos, escovar os dentes, executar um trabalho diário e repetitivo. Ao sair de casa dou mais que um beijo, dou-lhe AMOR, e isso faz com que a cada manhã eu sinta o beijo como se fosse a primeira vez, sempre de modo diferente, sempre NOVO.
"Eu".

segunda-feira, 30 de março de 2009

MISTÉRIOS DO AMOR

"Um amigo médico contou-me o seguinte. Ele era médico de um leprosário. Leprosos, estigmatizados, deformados, isolados. As enfermeiras eram freiras: alí passavam as suas vidas. É extraordinário o que o sentimento religioso é capaz de fazer! Uma das freiras teve uma infecção urinária. Teve que fazer um exame de urina. Juntamente com todas as informações patológicas, o laboratório encontrou na urina evidências do amor: muitos espermatozóides. Ele respeitou esse segredo. Não colocou essa informação na folha do exame."

(Rubem Alves: Ostra Feliz Não Faz Pérola, Ed. Planeta)

Eu teria feito o mesmo ! ... e você ?

segunda-feira, 23 de março de 2009

PLENITUDE NO AMOR.

Muitos fatores já motivaram casamentos ao longo dos séculos, a maioria deles alheios à paixão e amor. Arranjo familiar, segurança material, medo de solidão e do preconceito, entre outros. Mas atualmente cada vez mais nos damos conta e temos mais necessidade de uma relação de afeto em toda a sua plenitude. Cumplicidade, troca, desejos e satisfação. E quem consegue isso, sabe o quanto é bom e gratificante.
Muitos ainda, na busca desenfreada pela felicidade, confundem muito as coisas, talvez pelo imediatismo que vida moderna e o corre-corre do dia-a-dia nos impõem, muitas vezes sem nem nos atentarmos. Por muito pouco, relacionamentos são desfeitos. A falta de tolerância com os erros e imperfeições dos outros, tornam as pessoas descartáveis e o intolerante pouco disposto a laços afetivos duradouros e estáveis.
Aceitação, tolerância e humildade, palavras chaves (e budistas) para um relacionamento dar certo. É preciso equilíbrio no atendimento às necessidades e desejos do outro sem desprezar os nossos, saber dar “respiro” ao outro e preservar o nosso. Balancear as metas e sonhos do casal com a realização pessoal de cada um. Outro fator importante é respeitar o ritmo e velocidade do parceiro. Cada um tem seu tempo para as mudanças e acomodações necessárias para um bom relacionamento, uns mais imediatos, outros mais lentos.
Muito já foi escrito sobre relacionamentos, e sabemos que não existe fórmula para o amor dar certo. Mas podemos traçar linhas básicas, e lembrar que a vida a dois é como uma dança, cujos passos e ritmos mudam, exigindo muito jogo de cintura e equilíbrio nos pés (flexibilidade e base firme ).

segunda-feira, 9 de março de 2009

EPITÁFIO

Devia ter amado mais,
ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
e a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar
Devia ter complicado menos,
trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar.

(Sérgio Britto)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

TÃO POUCO E TÃO MAL....

Amamos tão pouco e tão mal, com uma metade ou até mesmo com um quarto de nós mesmos. E amamos, no outro, alguns pedaços escolhidos, os mais conhecidos, aqueles que nos causam menos medo. É tão raro amarmos alguém por inteiro, com aquilo que nos agrada e com aquilo que não nos agrada. É tão raro sermos amados por inteiro, com nossas cavidades de sombra, com nossos dorsos de luz.

Jean-Yves Leloup, em O Romance de Maria Madalena: Uma mulher incomparável.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

SALÃO DE BELEZA

Se ela se penteia eu não sei
Se ela usa maquilagem eu não sei
Se aquela mulher é vaidosa eu não sei
Eu não sei eu não sei
Vem você me dizer que vai a um salão de beleza
Fazer permanente massagem rinsagem
Reflexo e otras cositas más
Baby você naum precisa de um salão de beleza
Há menos beleza num salão de beleza
A sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão
Mundo velho e decadente mundo
Ainda não aprendeu a admirar a beleza
A verdadeira beleza
A beleza que põe mesa
E que deita na cama
A beleza de quem come
A beleza de quem ama
A beleza do erro puro do engano da imperfeição
Belle belle como Linda Envangelista
Linda Linda como Isabelle Adjani
Quem foi que te fez tão formosa
É mais linda que a rosa
E debrusada

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

LIBERTAÇÃO

...Ate que um dia por astucia ou acaso depois de quase
todos os enganos ele descobriu a porta do labirinto....
Nada de ir tateando os muros como um cego.
Nada de muros, seus passos tinham enfim
a liberdade de traçar seus proprios labirintos.
(Mario Quintana)

A MELHOR MANEIRA DE FUGIR É FICAR PARADO.

A melhor maneira de fugir é ficar parado. Lição que o burriqueiro Zero Madzero aprendera com a imbabala, a gazela dos matos densos. É a fuga da presa que engrandece o caçador. O ficar imóvel é o mais astuto modo de enfrentar o predador: deixar de ter dimensão, converter-se em areia no deserto. Desaparecer para fazer o outro se extinguir.A melhor maneira de mentir é ficar calado. Lição que o burriqueiro não aprendera com ninguém. O silêncio não é ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra. Por isso, Madzero só falou quando a esposa deixou de lhe pedir para contar a história do astro. Enquanto Mwadia lhe enxugava o corpo, o burriqueiro relatou as extraordinárias sucedências que a ele pareciam singelas, mas que iriam mudar o destino do seu lugar e da sua gente. (Mia Couto, O outro pé da sereia)