quarta-feira, 1 de abril de 2009

PATOS SELVAGENS

Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. Tudo tão bonito! Mas era uma beleza que doía. O cansaço do bater das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando e as espingardas dos caçadores... Foi então que um dos patos selvagens, olhando lá das alturas para a terra aquí em baixo viu um bando de patos domésticos. Eram muitos. Estavam tranquilamente deitados à sombra de uma árvore. Não precisavam voar. Não havia caçadores. Não precisavam buscar o que comer: o seu dono lhes dava milho diariamente. E o pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, baixou seu voo e passou a viver a vida mansa que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos. Até que... Até que, num ano como os outros chegou de novo o tempo da migração dos patos. Eles passavam nas alturas no fundo do azul do céu, grasnando, um grupo após o outro. Aquelas visões dos patos em voo, as memórias das alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com alguma lugar esquecido dentro do pato domesticado, o lugar chamado saudade. Uma nostalgia pela vida selvagem, pelas belezas que se vêem nas alturas, pelo fascínio do perigo... Até que não foi possível aguentar a saudade. Resolveu voltar a ser pato selvagem que fora. Abriu suas asas, bateu-as para voar, como outrora... mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gordo demais. E assim passou o resto da sua vida: em segurança. gordo de barriga cheia, protegido pelas cercas e triste por não poder voar.

(Rubem Alves: Ostra feliz não faz pérola. Ed. Planeta.)

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